O cérebro é o quartel general de um complexo sistema que é o nosso corpo. Apesar das inúmeras descobertas na área da neurologia, psiquiatria, ciências sociais e básicas, ainda se trata do nosso orgão mais desconhecido e enigmático.
Este blog é escrito por médicos da área da Psiquiatria com o objetivo de dar a conhecer alguns factos interessantes sobre a mente humana.
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sábado, 7 de maio de 2016

Tem picos de tensão e quantas mais vezes a mede maior está o valor?

Pois é, quantos de nós quando nos sentimos tontos ou com uma sensação esquisita que não conseguimos explicar, medimos a tensão arterial para ver se não será “tensão alta”? É verdade, muitos. É também verdade que na grande maioria das vezes, ela está mesmo mais elevada que o normal. Ficamos preocupados e voltamos a medi-la passado uns momentos e … a tensão aumentou ainda mais!

Esse fenómeno tem uma explicação relativamente simples e, para tal, devemos remontar a tempos bem longínquos, quando os nossos antepassados viviam na numa selva um pouco diferente da nossa. Quando estes eram confrontados com uma ameaça (um leão, por exemplo), o corpo reagia de maneira a fugir, ou seja, os músculos contraíam-se, o coração começava a bater mais depressa e a pressão arterial disparava. Tudo devido à ativação de uma parte do nosso sistema nervoso apelidado de Simpático. Acontece que, a nossa realidade é bem diferente, quando nos assustamos, não fugimos. Por outras palavras, quando estamos mais ansiosos, o nosso sistema nervoso simpático prepara-nos para fugir mas nós não lhe obedecemos. Ficam-nos as suas consequências, nomeadamente, o nosso coração fica a bater mais depressa e a nossa tensão aumenta. Ao verificarmos que a tensão está alta, ficamos naturalmente mais preocupados, levando a uma maior ativação do tal simpático e a um novo aumento da tensão.


PS: Os aumentos de tensão arterial provocados pela ansiedade são facilmente controláveis e na sua grande maioria inofensivos mas por vezes podem levar a problemas sérios, por isso não facilite e fale disso ao seu médico.

Imagem: www.theguardian.com

domingo, 20 de março de 2016

Stress: amigo ou inimigo da perfeição?

Muitas foram as alturas em que, por ainda faltar muito tempo para entregar um trabalho, não conseguia começar a fazê-lo. Apenas quando o prazo se aproximava é que arranjava força para “deitar mãos à obra”. Outras vezes, mais em vésperas de exames ou apresentações importantes, por estar demasiado “stressado”, bloqueava e não conseguia concluir a tarefa com a perfeição que desejava.

A molécula responsável por esta variação chama-se noradrenalina. Ela é responsável pela capacidade de concentração e de resolução de problemas. Quando presente em quantidades moderadas estas capacidades atingem o seu máximo mas quando libertada em grandes quantidades estas são inibidas. Assim, quando estamos demasiado relaxados, temos quantidades de noradrenalina muito baixas e a nossas capacidades intelectuais estão adormecidas mas quando estamos demasiado stressados ou nervosos a quantidades de noradrenalina vão ser tóxicas tornando-nos incapazes. Em suma, mais uma vez “no meio é que está a virtude” (como mostra o gráfico)!



Claro que isto varia de pessoa para pessoa. Pessoas muito relaxadas por natureza vão produzir menos noradrenalina e precisam de estar “com a corda ao pescoço” para conseguirem produzir enquanto que pessoas mais perfecionistas e ansiosas trabalham melhor quando não estão sob pressão, bloqueando por vezes em alturas de grande stress.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Será que tenho Alzheimer?

Certamente que já se deparou com a preocupação de algum amigo ou familiar em ter Alzheimer. A tão mal fadada doença “descoberta” pelo senhor que lhe deu nome há cerca de 100 anos, teima em não ter cura, nem tão pouco um tratamento eficaz. Por essa razão, muitas pessoas que experienciam certos esquecimentos como onde puseram as chaves do carro, o código do multibanco, as datas de aniversários, o nome de determinada pessoa, pensam logo na terrível hipótese “Será que tenho Alzheimer?”. Como se não bastasse, esses pensamentos ocorrem mais frequentemente em alturas em que a pessoa anda mais desanimada ou ansiosa. 
Acontece que a depressão e a ansiedade podem muitas vezes imitar os sintomas da demência de Alzheimer, tornando a questão num círculo vicioso. A pessoa ansiosa/deprimida esquece-se, como está deprimida pensa de maneira mais negativa e acha que tem Alzheimer, levando a mais ansiedade e consequentemente, mais esquecimentos. Esta associação é tão comum que levou alguns autores a chamá-la de “Pseudo-demência”. Felizmente, ao contrário da verdadeira, esta demência tem um tratamento eficaz podendo mesmo falar-se em cura. 
Embora semelhantes, há algumas pistas que ajudam a distinguir as duas, como ilustra a tabela seguinte: 

Depressão
Demência
Início
Súbito com possível fator precipitante
Insidioso
Curso
Flutuante
Lento e progressivo
Memória
Melhor do que a autoavaliação
Pior que a autoavaliação
Humor
Deprimido
Variável
Quando testada
Respostas tipo “não sei”, “não sou capaz”
Habitualmente esforça-se por responder
Reação do doente
Hipervalorização dos défices “estou muito mal”
Desvaloriza os défices
Resposta ao tratamento antidepressivo
Boa com restabelecimento da memória
Sem resposta